Capítulo 8
Eu dei um pulo de susto e Marcos riu. Eu tinha que correr e chegar no anfiteatro, onde teria o ensaio da peça, mas eu não queria ir. Eu o beijei de novo.
- Você não tem que ir? - perguntou, parando o beijo, sorrindo e me puxando pelo braço delicadamente em direção à porta.
- Eu não quero ir. - resmunguei dobrando os braços na minha barriga.
- Mas você tem que ir. - ele disse passando o braço pela minha cintura e continuamos a andar pelo pátio, agora desabitado. - Vamos, eu te levo. - então ele apressou o passo e eu tive que me esforçar para manter o ritmo sem dar de cara no chão.
Não foi fácil, mas eu consegui. Chegamos ao anfiteatro e a Sra. Ucker já estava lá com a maioria do "elenco" da peça. A Sra. Ucker é a professora que sempre costuma dirigir as peças do colégio e é uma mulher de meia idade, baixinha e barriguda. Ela usa uns óculos de fundo-de-garrafa e não parece se importar quando todos riem quando eles ficam embaçados e ela finge continuar enxergando. Nada muito fora do normal.
O que me surpreendeu foi quando Malkin entrou comigo no anfiteatro e a Sra. Ucker deu um lindo sorriso - aquele que ela só dá quando o teatro já está completamente pronto.
- Aí está nosso casal apaixonado! - ela disse com sua vozinha falhada.
- Quem? - perguntei, assustada.
Olhei para Marcos, que continuava me levando ao palco com a mão na minha cintura. Ele não me olhou, mas eu sei que estava rindo por dentro. Eu não entendi, mas continuei caminhando com ele por todas as filas de cadeiras até chegarmos ao palco onde todos estavam.
Elisa, parada em um canto do palco, me olhava pedindo uma explicação, enquanto os outros sorriam que nem uns retardados. Reconheci a maioria dos atores por eles sempre encenarem as peças comigo.
- Vocês dois. - a professora continuou. - O casal apaixonado. Romeu e Julieta! - disse quase pulando de alegria.
Aí a ficha caiu.
- Você vai fazer o Romeu? - me afastei para olhar nos olhos dele.
- Você não gostou? - perguntou, espantado.
Mas vê se pode! Eu é que devia estar espantada. E eu estava, na verdade, mas por que ele não tinha me dito? Ia poupar muitas preocupações. E criar outras...
- Não, não. Eu gostei. - eu disse, abrindo um sorriso, apesar de estar confusa por dentro.
Marcos sorriu, e meu coração acelerou.
- Você não sabia? - a Sra. Ucker se meteu no nosso meio e me perguntou, confusa. - Esse jovem rapaz veio aqui ontem para fazer o teste. - ela disse botando a mão pequena no ombro de Marcos. Ele é, no mínimo, duas cabeças mais alto. - Ele é ótimo. - concluiu, então, no meu ouvido.
Eu abafei o riso.
Então esse era o motivo dele não ter ido me visitar na véspera. Ele fora fazer o teste para o papel. Muito conveniente.
- Eu sei. - respondi, e então a Sra. Ucker começou a nos organizar e a falar com Elisa sobre como iria ser o cenário. Eu sabia que ela ia querer uma explicação mais tarde. Ou talvez, uma boa história. Elisa é fascinada em romances - não que a minha vida seja um romance - e eu não ia escapar depois da peça, dava para ver nos olhos dela. Eles relampejavam cada vez que ela me via sorrindo para Marcos.
Nós ensaiamos durante os últimos três períodos de aula. Foi cansativo, mas por outro lado é sempre bom ter que matar aula de matemática de vez em quando. Ainda mais quando você está com Marcos. Eu já mencionei que ele é extremamente agradável e engraçado? Interpretando o Romeu então... Eu não parava de rir. A Sra. Ucker até recomendou que eu fosse tomar um pouco de água para me acalmar. Só por fora, pois por dentro, meu coração batia a mil. Com certeza todos do teatro já deviam ter sacado que eu e Marcos estávamos juntos, como Elisa. E quem não tirava os olhos de Marcos era Teresa, mais conhecida como Tess, a chatinha da minha aula. Ela nunca gostou de mim, e vice-versa. Ela é metida a supermodelo e se acha melhor que todo mundo. Não dá pra conviver com alguém assim. O que me surpreendeu foi ela ter aparecido para o ensaio. Eu não sabia que ela estaria no elenco, e isso foi uma grande surpresa. Tess nunca compareceu às apresentações no final do ano e nunca pareceu se interessar em teatro. Algo me dizia que não era realmente pelo teatro que ela estava ali.
Minha teoria se comprovou quando ela parou Marcos na porta do anfiteatro depois que o sinal tocou para o final das aulas.
Eu estava longe, mas consegui ouvir a vozinha fina e irritante dela.
- Oi Marcos! - ela sorriu mostrando os dentes branquinhos. - Ótimo trabalho!
- Obrigado, Tess. - ele sorriu de volta, mexendo o roteiro nas mãos.
Tess. Tess. TESS?
- É claro que a Clara - ela falou meu nome um pouco alto demais e com desprezo na voz. Era pra eu ouvir. - te atrapalhou com aquele senso de humor enorme dela, - ela deu um risinho. - mas você é um ótimo Romeu. - então ela deu tapinhas nas costas dele e se inclinou para beijá-lo no rosto.
Preciso dizer que eu estava a ponto de pular nela? Acho que não.
Eu fiquei vermelha e trinquei os dentes. Elisa, percebendo minha súbita mudança de humor, me puxou dali correndo. Eu a agradeci depois.
- Eu juro que eu podia dar um tiro nela e ninguém ia perceber. - eu estava furiosa. Quando fico furiosa eu falo demais. - Quero dizer, ela nem é tão bonita, e ela é super fresca. E, meu Deus, você já viu o cabelo dela? É totalmente oxigenado, mas ela vai morrer sem admitir. Afinal, o que ela quer com o Marcos? Será que não ficou claro que ele estava comigo? Ah, quando eu pegar aquela piranha maldita ela vai sofrer. - falo demais. Falo coisas sem nenhum sentido.
- Ok, amiga. Respira. - Elisa me disse me empurrando o copo d'água.
Depois de um gole e uma respiração profunda eu continuei.
- E você viu como ele estava com ela? Da onde veio aquela intimidade? Eu perdi alguma coisa? - eu desabei na cama.
- Ele não estava todo assim com ela. Você só pode estar brincando, Clara. O cara ta caidinho por ti, e você fica aí cheia do ciúme. Será que não da pra relaxar? - ela perguntou e pegou o copo das minhas mãos.
- Mas ela beijou ele! - eu disse, voltando a ficar sentada na cama.
- Francamente, amiga, você tem transtorno obsessivo compulsivo?
- Quê? - eu realmente não entendi.
- Nada, esquece. Olha só, você não precisa se preocupar,ok? Ele está com você, não está?
- Acho que sim...
- Então pronto. Vê se larga de ser ciumenta. - Elisa disse, e eu realmente fiquei melhor. Era mesmo tudo bobagem. Como eu sou estúpida.
- AAAH! - gritei voltando a desabar na cama, botando o travesseiro na cara.
- Que foi agora? - Elisa perguntou na voz que me dizia que ela estava revirando os olhos.
- Eu sou tão criança! - respondi ainda com o travesseiro na cara.
- É mesmo. - concordou.
- Não era pra concordar! - disse me sentindo pior.
- Mas me conta uma coisa... A Teresa pinta o cabelo, mesmo? - perguntou depois de algum tempo.
Eu tirei o travesseiro da cara e me sentei ao lado dela, incrédula.
- Você acha que não? - perguntei olhando para frente. Enxergando o nada.
- Não sei...
- Ela tem que pintar. Impossível não ser pintado. Você já viu aquela cor antes?
- Não. Mas porque ela tem que pintar? - perguntou ela, me encarando.
- Porque sim! Tudo nela é falso, das unhas até a cor dos olhos! É claro que ela pinta o cabelo também. - concluí.
- E qual é a importância disso, afinal? - ela me pegou. Eu não queria falar...
- Ela é mais loira que eu... - murmurei.
- E...?
- Marcos gosta de loiras... - falei mais baixinho ainda.
Eu estava certa que Lisa ia me bater. De brincadeira, mas ia.
- Você está tão chata... - ela disse finalmente, rindo alto. - E apaixonada... - concluiu e pulou em cima de mim, me fazendo cócegas.
Foi a campainha que me salvou de morrer sem fôlego.
- Eu... Tenho... Que... Abrir... Porta. - disse, respirando, finalmente.
- Quem você está esperando? - ela me perguntou, enquanto descíamos as escadas, de sobrancelhas erguidas.
- Sinceramente... Ninguém. - respondi. Era segunda-feira de tarde, quem faria uma visita sem aviso? E meus pais nem estariam em casa...
Meus pensamentos voaram até uma pessoa, e meu coração acelerou.
A campainha soou mais uma vez e eu corri para a porta antes de Lisa.
- Quem é? - ela perguntou quando chegou ao meu lado.
A porta aberta mostrava a figura alta, magra - até demais - e loira de Teresa. Ela estava radiante sob a luz do sol e com as enormes argolas de ouro penduradas nas orelhas.
Postado por Daay D. às 18h36
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Capítulo 7
Na segunda-feira de manhã eu estava nervosa em encontrar Marcos na aula. Desde sábado nós não tínhamos nos falado, e isso me deixou furiosa, por que,
a) o cara me beija;
b) o cara diz que eu sou única;
c) e o mais importante, ele disse que eu sou sexy,
e não me liga no dia seguinte! Ok, ok. Talvez eu esteja exagerando, porque, provavelmente, ele não tem meu telefone. Só pode ser isso.
Naquele sábado nós tínhamos passado a tarde juntos no calçadão, com direito a algodão-doce. Foi melhor que um sonho.
Ah, sim. Eu já estava perdida e inegavelmente apaixonada por Marcos Malkin. O meu MM's.
Mas eu tinha coisas mais importantes com o quê me preocupar aquele dia. O ensaio da peça começaria e eu mal tinha decorado as falas complicadas da Julieta. E, claro, não sabia quem seria o Romeu. Isso, na verdade, era o que mais estava me preocupando, porque eu teria que beijar ele.
- Que peça vão fazer este ano? - minha mãe perguntou no carro, a caminho do colégio, me vendo tentar decorar as falas.
- Romeu e Julieta. - respondi, desanimada.
- Que ótimo! Você vai fazer a Julieta? - perguntou.
- Infelizmente.
- Ah, filha. Por que você não gosta dela? Nunca entendi isso...
- Ela se mata por ele, mãe! - disse, como se fosse óbvio.
- E ele por ela! Não é a coisa mais romântica que você já ouviu? - não, definitivamente, não era.
A coisa mais romântica que eu já ouvira foi:
"Esse seu azar é tão encantador..."
Você já ouviu coisa mais romântica que isso?
Nem eu!
Mas eu não falei nada para minha mãe, e não tinha falado nada a ninguém.
Por mais que eu tentasse pensar que não, não sabia ao certo se aquela relação - se é que havia alguma - progrediria.
Quero dizer, rolaram beijos, abraços e o pôr-do-sol mais lindo que eu já vi, mas eu realmente não conhecia Marcos tão bem quanto queria. Então eu decidi que ia conhecer ele.
Entrei na sala de aula com o coração na boca, eu nem sabia por que estava tão nervosa. Avistei Elisa e fui sentar com ela. Não diga que eu estava fugindo, porque não estava. Só estava tentando evitar constrangimentos maiores.
Elisa começou a falar sobre algum dever de matemática, mas eu não estava escutando, estava olhando atentamente para a porta, esperando certo alguém entrar.
- Quem você está esperando, afinal? - ela me perguntou, braba por não estar dando a mínima à conversa.
- Eu? Ninguém. - desviei rapidamente o olhar da porta e me virei para ela. - Como vai, Lisa? - perguntei amigavelmente, com meu sorriso meigo e ela cerrou os olhos.
- O quê você não me contou? - perguntou e nesse exato momento Malkin passou pela porta.
- Nada. - falei, na defensiva, tentando fingir que não o vi chegar.
Para meu total constrangimento Marcos se sentou atrás de mim e de Elisa.
- Bom dia. - falou ele, sorrindo, e eu automaticamente fiquei escarlate.
- Bom dia. - eu e Elisa respondemos em coro.
Eu virei a cabeça para frente e Elisa não deixou de notar.
- Perdi alguma coisa? - cochichou baixinho.
- Não. - cochichei de volta. - Você não vai participar da peça? - perguntei, tentando mudar de assunto.
- Eu não perderia essa por nada. - respondeu, parecendo empolgada em o assunto ser voltado a ela. - Vou fazer o cenário e o seu guarda-roupa, Julieta.
Eu ri. Elisa sempre conseguia me fazer esquecer as coisas importantes e rir do nada. Foi até bom.
Nos primeiros três períodos da manhã eu tentei ao máximo não ter de ficar sozinha com Marcos, mas no recreio, foi impossível, pois ele me achou.
- Está me evitando? - perguntou quando me encontrou em uma mesa da biblioteca.
Ninguém vai à biblioteca no recreio. Fala sério. Eu pensei que ele não ia me achar lá.
- Não! - neguei rapidamente e parei de fingir ler minhas falas. Ele tinha me surpreendido. Como me achou? - É que...
- Envergonhada? - perguntou, e um sorriso brotou nos seus lábios.
- Estou. - respondi baixando a cabeça e me sentindo a maior boba de todos os tempos.
Marcos ergueu minha cabeça com a mão e olhou nos meus olhos. Sua beleza era quase impossível de se acreditar. Como alguém poderia ser tão bonito? E cheiroso. Hum.
- Não precisa. - disse ele com a voz sedosa. - Desculpe não ter te ligado ontem. Eu fiquei com umas coisas para resolver...
- Tudo bem. - sorri. - Mas... Eu queria saber mais sobre você. - disse.
- Sobre mim? - ergueu as sobrancelhas.
- É, tipo... Por que você se mudou? - perguntei. Eu estava disposta a fazer um interrogatório.
- Por causa do trabalho do meu pai. - respondeu, me olhando atentamente.
- No que ele trabalha?
- É engenheiro mecânico. - respondeu parecendo se divertir com minhas perguntas.
- E sua mãe? - foi aí que ele abriu um sorriso enorme.
- É professora de química. - e aquilo veio com um BANG!
Fiquei de boca aberta e ele estava rindo.
- Quê?
- Eu menti dizendo que não sabia química, para poder me aproximar de você. - você já ouviu alguma coisa mais romântica que essa? Nem eu.
- Ta brincando? - perguntei incrédula. Ele balançou a cabeça negativamente. - Não dá pra acreditar. - eu disse e depois comecei a rir.
Me aproximei e dei um selinho nele.
- Cor?
- Azul. - respondeu me olhando nos olhos. - Você?
- Verde. - respondi sorrindo.
- Ambição? - perguntei.
- Tentar descobrir de onde vem tanta má sorte, assim. - ele disse apontando pra mim e riu da minha careta.
- Que sem graça. - resmunguei.
- E você, Maria Clara?
- Tentar descobrir por que me chama de Maria Clara. - disse.
- Ah, é um nome bonito, sabe... - ele disse sorrindo. - Vai ser a Julieta? - perguntou apontando o papel com as minhas falas.
- É a intenção. - respondi, sorrindo pelo canto dos lábios. - Mas como sabia?
- Ouvi por aí... - respondeu olhando o relógio. - Mas qual sua preocupação?
- Não sei quem vai ser meu Romeu. - respondi, meio pra provocar.
- Ah, não tem problema. Eu já sei. - disse ele sorrindo e se aproximou para me beijar.
Novamente, as borboletas acordaram no meu estômago e meu coração parecia correr a maratona. Eu podia ficar o dia inteiro naqueles braços fortes e não me importaria, mas infelizmente, o sinal tocou.
-> comunidade no orkut pra Pura Sorte: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=51971548&refresh=1 eeentra? thanks. beijos ;*
Postado por Daay D. às 16h26
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Eu nunca fui do tipo que você chamaria de sortuda, sempre tropeçando por aí em círculos. Mas eu devo ter tropeçado em algo... Eu estou mesmo sozinha com você? Eu acordo sentindo que minha vida vale ser vivida, não consigo me lembrar da última vez que me senti assim. Agora quem iria pensar que alguém como você poderia me amar? Você é a última coisa que meu coração esperava. Quem iria pensar que eu algum dia encontraria alguém que me faz sentir assim? Alguns corações só dão sorte às vezes.

Sou uma menina de quinze anos que ainda acredita em contos de fadas, que gosta de ouvir música no último volume, que não vive sem as amigas, que adora incomodar as irmãs menores, que quer fazer faculdade de jornalismo, publicidade ou psicologia, que é indecisa – graças à mãe-, que é de lua, que se irrita fácil, que não gosta de nada que tenha matemática, que é fascinada pelos livros. Sou uma menina que não acredita em sorte, que quer escrever seu livro, que é viciada em chocolate, que não pode nem ver filme de terror de tão medrosa, que adora ver TV, que odeia estudar, mas estuda. Sou uma menina que quer viajar pelo mundo inteiro, conhecer gente nova e fazer compras, que sonha com seu príncipe encantado, que precisa conhecer, pelo menos, algum dos seus ídolos, para não pensar que há um complô lá em cima contra ela. Sou uma menina careta que quer muito ir para o Caribe com as amigas, ficar moreninha, beijar uns marinheiros gatchenhos e nadar naquela água transparente. Sou uma menina que acredita demais no amor. No único e verdadeiro amor. Aquele para a vida toda. Dayanne, prazer :) Pode me chamar de Day.
Contato: dayds_@hotmail.com

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